Gatos Apavorados ou Zens:O Que Esperar do meu Gato?*

Por que gatos se comportam de forma bem diferente? Não estou falando de diferenças comportamentais discretas, diferenças notadas nos seres-humanos, por exemplo. Estou falando de animais que são tão diferentes que algumas pessoas desavisadas até acreditam que são animais de espécies ou subespécies diferentes. D. Josefa tem uma casa com um quintal bem grande e generosamente oferece comida para alguns gatinhos sem lar. Ela sempre comenta na fila do banco que coloca comida para dois tipos de gatos: os gatos “de verdade”, que inclusive tem até nomes e sobrenomes e, os gatos “do mato” que mal chegam perto e só comem quando D. Josefa se afasta e fica olhando da fresta da porta entreaberta. D. Josefa não acreditou quando conversamos sobre essa situação e ela foi avisada que os dois tipos são gatos domésticos (Felis silvestris catus). Não que isso fizesse alguma diferença para a nossa gateira dedicada, mas ela se interessou em saber o porquê deles serem tão diferentes. Nos consultórios veterinários e locais de banho e tosa, todos se tornam um pouco ansiosos quando um paciente felino é atendido pela primeira vez. Não sabemos se se trata de um gatinho amistoso e bastante simpático ou de uma fera indomável. Por que uns gatinhos são manipulados, examinados e submetidos a procedimentos cruentos com maior tranquilidade do que outros? A constituição comportamental, chamada erroneamente de personalidade, é construída a partir de uma serie de experiências ao longo da vida: uma experiência desagradável ou uma nem tanto, mas repetidamente vivenciada; o que observou durante a primeira etapa da vida; além de influências genéticas e circunstâncias vivenciadas durante a gestação. Porém, existe um período na vida dos gatos que chamamos de período de socialização. Esse período é marcado por transformar situações e indivíduos em elementos familiares para o resto da vida. Parece algo bastante obvio, mas não e bem assim. Muitos animais experimentam as vantagens e desvantagens do período de socialização, mas em gatos o processo é determinante para a formação da constituição individual. Gatos que foram socializados com cães amam cães e assim por diante. Encontramos gatos que foram socializados com roedores e cuidam desses animais sem jamais predá-los. Por que isso é importante para Médicos Veterinários? Por que ao invés de preocuparmo-nos com métodos de contenção físicos e químicos somente, devemos levar em conta todas as limitações dos gatos. Estabelecer expectativas reais para os gatos é o ideal. Gatos não socializados não devem ser mantidos confinados da mesma forma, não devem ser estabelecidos prognósticos semelhantes aos gatos socializados com seres humanos, por exemplo. Um gato não socializado com seres humanos que apresenta uma ferida extensa e que deve ser manipulado várias vezes ao dia não poderá ter um prognóstico semelhante ao gato socializado. Um hemograma do gato deve ser avaliado também pelo seu potencial de reatividade orgânica a um estresse da manipulação, que é completamente diferente em um gato socializado aos humanos e as situações clinicas do que o seu antípoda. Para terminar o post, a socialização em filhotes (pouco falada e praticada quase que inconscientemente) deve ser enaltecida tanto quanto a imunização e vermifugação em filhotes. Gatinhos até à 8a semana sem serem manipulados por humanos terão bastante dificuldade em serem manipulados por humanos ao longo de suas vidas. Até a próxima. Gostaria de agradecer a oportunidade que o prestigiado Doutor Reginaldo me concedeu. Abraços à todos os leitores.

*Todos agradecimentos ao colega de luta gateira,Carlos Gabriel Dias MV MSc PhD
Rio de Janeiro, RJ.
Medico Veterinário (UFRRJ) Mestre e Doutor em Ciências Veterinárias (UECE)
Carlos Gabriel Dias MV MSc PhD
http://www.clinicaparagatos.blogspot.com/
Muito prazer pelo post.

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